50 DOUTORES INSCRITOS EM CONCURSO PARA GARI: FALTA DE EMPREGO OU DE COMPETÊNCIA?
Pelo amor de Deus, antes de tudo, entenda: não estou dizendo que trabalhar como gari é o fim do mundo. Estou simplesmente fazendo uma reflexão sobre o mercado de trabalho e como as pessoas podem usar suas qualificações. Leve isso em consideração quando for comentar, ok?
Fiquei chocado quando vi pelo Bom Dia Brasil, da Globo, que, num concurso para gari no Rio de Janeiro, dos 124.000 candidatos inscritos, o que já é um fato impressionante, segundo a reportagem, “quase 1,2 mil têm nível superior completo; 86 têm pós-graduação; 24, mestrado e 50, doutorado“. O concurso exige apenas o quarto ano do ensino fundamental e o salário é de R$ 486,00, um patamar baixo para os que têm do nível superior para cima, levando a estranhar o motivo de tantas pessoas com essa faixa de qualificação estarem disputando vaga com quem não tem nem o nível médio completo. Veja mais detalhes da matéria do noticiário clicando aqui.
O fato de mais de mil canditatos para esse concurso terem nível superior não é novidade. Em muitos concursos que exigem ensino médio ou qualificação menor, há tempos que uma boa parte dos concorrentes têm graduação ou título similar. Muitos fatores influenciam para isso: desde bacharéis que saem das universidades sem condição de assumir no mercado as posições para as quais eles foram, em tese, preparados, passando pelo desejo da estabilidade (ou estagnação) do cargo público, até a justificativa da falta de emprego para os graduandos. Não são desculpas para deixar de brigar por algo melhor, condizente com o nível esperado, porém isso já virou tradição nos concursos públicos brasileiros.
É justo?
O que me chama mais atenção é saber que indivíduos com estudo além da graduação também estão aderindo a isso. Não somente descendo até os concursos de nível médio como indo mais fundo, como mostrado acima. Ver mestres e doutores concorrendo com cidadãos que não tem nem metade da qualificação profissional deles é, no mínimo, controverso. Essas pessoas, em muitos casos, não tiveram a oportunidade de ir para a escola básica pois trabalhavam desde crianças para complementar a renda, vivendo às vezes em famílias desestruturadas. Em contraponto, sabe-se que muitos dos que conseguiram conquistar o valoroso título de mestre ou doutor o fizeram porque vêm de famílias que tinham condição de subsidiar os caros estudos, inclusive fora do país. A disputa se torna injusta e até imoral. Pior: é praticamente certo que alguns dos de nível alto de estudo que passarem no concurso desistiram em pouco tempo, seja por não aguentarem a carga de trabalho, seja por passarem em outra seleção. Nisso, estarão tirando a oportunidade de emprego de muitos pais de família que não podem concorrer com eles em concursos que exigam mais escolaridade.
Novamente deixo claro: não que o emprego de gari seja repugnante; ao contrário, é uma das atividades mais importante da sociedade, apesar de muita gente não reconhecer isso. Tire os garis das ruas e verá a imensa falta que eles farão (não sei se sentiríamos a mesma falta de certos mestres ou doutores). Mas, que essa profissão seja disputada pelas pessoas que não têm como concorrer para cargos mais altos. Que os graduados, pós-graduados, mestres e doutores concorram para funções públicas equivalentes a seus títulos. Que o preenchimento dos cargos públicos ocorra por meio de um processo justo.
Levando em consideração que os mestres e doutores poderíam atuar em faculdades, cursos de especialização, instituições de pesquisa e em funções estratégicas dentro de organizações privadas, termino esse artigo achando, até que me provem o contrário, que esses profissionais são de meia tigela (para não dizer profissionais de merda)!
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Tags: Concurso público, Diversos, Mercado de trabalho, Profissão

















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