O caso do Twitter do STF: o meu, o seu, o nosso

Por Bárbara Lobato

Nesta terça-feira (15/02), a timeline brasileira no Twitter, em especial a dos jornalistas e formadores de opinião, ficou fervorosa. Horas depois do jogador Ronaldo anunciar aposentadoria e toda a opinião pública fazer vários comentários, foi a vez do Superior Tribunal dar um desfecho sobre o assunto:

A repercussão com certeza abalou relações diplomáticas entre o Judiciário e o Legislativo. Ora, onde já se viu isso: a justiça sugerindo que o atual presidente do Senado se aposente também. O reflexo de tal ação, até o momento, teve dois desdobramentos: o primeiro, de deletar tal informação, e, segundo, o próprio SFT reunir todos da equipe de comunicação e tomar a providência de divulgar uma nota oficial somente no site:

A Secretaria de Comunicação Social do Supremo Tribunal Federal esclarece que, por ato impensado, sua página oficial no Twitter foi usada indevidamente por funcionária terceirizada, para tecer comentários impróprios a respeito de eminente autoridade, a qual o STF e a SCO pedem encarecidas desculpas. A SCO também pede desculpas aos seguidores da página do Supremo no Twitter, pois os comentários em nada, direta ou indiretamente, refletem os pensamentos desta Corte Suprema e informa que já foram tomadas as medidas administrativas cabíveis.

Não bastasse isso, o assunto gerou no Twitter, em poucas horas, mais de 22 mil impressões de usuários. Jornalistas não deixaram de defender a funcionária, é claro. É o caso, por exemplo, da Miriam Leitão, que refletiu no blog dela que a opinião, embora equivocada da funcionária, reflete o anseio da opinião pública.

O que está em debate e é necessário ter em mente: houve um erro na utilização da ferramenta. Foi um equívoco a ausência de um pedido de desculpas público e pelo próprio Twitter. Foi um equívoco maior ainda apagar o que foi postado e fingir que nada aconteceu.

Como ferramenta de comunicação dialógica, imediatamente deveria ser feito um pedido de desculpas a todos os seguidores do Twitter. Acalmaria não só comentários de jornalistas, como seria transparente em reconhecer um erro – que pode acontecer a qualquer um, quero enfatizar.

O presidente do Tribunal, Cezar Peluso, encaminhou um pedido oficial de desculpas ao presidente do Senado, José Sarney. Em seguida, com ares de bom humor, o próprio Sarney publicou na página de vídeos oficias do Senado uma resposta. Disse que se sentia lisonjeado pela comparação com o fenômeno e que a moça não fosse demitida do STF.

E na timeline do Twitter do STF, não cabem desculpas ou explicações? A única manifestação foi dada por nota na página do STF. Quem não tem conta no Twitter pode ter ficado sem entender. O assunto repercutiu de tal forma que foi tema dos principais veículos de comunicação do país.

Não é a primeira vez que a ferramenta causa rumores profissionais. Com este episódio, já é a 6ª pessoa demitida pelo uso, digamos, inadequado da ferramenta. No ano passado, o diretor da Locaweb, Alex Glikas, foi demitido após ironizar o São Paulo Futebol Clube, time patrocinado pela empresa em que trabalhava. No mesmo ano, o Grupo Abril demitiu o editor da revista National Geographic, Felipe Milanez, depois que o jornalista criticou uma matéria da revista Veja em seu perfil no Twitter.

A editora de noticiário do Oriente Médio da CNN, Octavia Nasr, também foi dispensada por postar uma mensagem no Twitter na qual manifestava “respeito” por um ex-dirigente do Hezbollah. O ano encerrou com a demissão da estudante de Direito Mayara Petruso, que ofendeu nordestinos em seu perfil e foi dispensada de seu estágio no escritório de advocacia Peixoto e Cury Advogados.

No mês passado, foi a vez do fotógrafo Thiago Vieira, que prestava serviço para o jornal Agora São Paulo. O profissional, que estava na sede do Palmeiras para uma cobertura, publicou uma mensagem em que relacionava os dirigentes do clube a porcos. Conselheiros do time agrediram Vieira, que em seguida foi dispensado pelo jornal.

Então, pelo que se vê, é preciso ter cautela e discernimento no uso de ferramentas de redes sociais. Acima de conhecimento técnico, é preciso ter a convicção de que as ferramentas de redes sociais refletem um comportamento social, só de forma mais ampla e sem fronteiras.

Obs: Parte do título deste artigo foi baseado em comentário da Miriam Leitão no próprio blog. Puramente irônico e com muito, mas muito humor.

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Notas do editor:

1ª Estou para ver o dia em que a Justiça assumirá abertamente qualquer erro, por mais bobo que pareça;

2ª Esse caso só vem a corroborar com minha posição de que redes sociais em empresas privadas ou repartições públicas não devem ficar a cargo de qualquer um e que liberar as redes sociais para todos só para parecer “moderninho” é um ato muito insensato. No Twitter, uma agulha caindo no chão faz o mesmo estrondo de o impacto de um meteoro.

Sobre Bárbara Lobato

Jornalista, pós-graduanda em Comunicação e Multimídia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).

6 comentários

  1. Ótimo artigo.

    E digo mais: “etiqueta” na web não é frescura, é fundamental.

    É preciso ter cautela e bom senso ao utilizar estas ferramentas, afinal, milhares de pessoas compartilham o mesmo espaço. O que “vai para a web”, ganha grandes proporções, em poucos minutos.

    Assim como você disse, uma nota de desculpas no twitter, faria toda a diferença. Afinal, a comunicação deve existir sim, mas da maneira correta (dirigida ao público e momento corretos).

  2. Bárbara Lobato disse: - Responder

    Com certeza, Paula. É preciso ter cautela, mas também partir para um debate mais amplo. Várias ações, consideradas como “equívocos”, são reflexo de uma cultura bem heterogenea no Brasil. Fazer esse tipo de comentário em uma rede social e com tamanha relevância na web leva a resultados grandiosos. Mas, se fosse em um twitter pessoal com larga abrangência, o indivíduo deve se policiar em relação aos comentários? Neste caso, não seria tratado como um perfil diferente no convívio próximo e pessoal do perfil da web? Deixo aberto aqui o debate.

  3. Grazielle disse: - Responder

    Muito bom o texto. Esclarecedor e verdadeiro.

  4. Acredito que, se fosse um perfil pessoal, este comentário seria encarado de uma outra forma, menos constrangedora, afinal, seria uma opinião, como qualquer outra. Mas para o STF, este tipo de comentário, em seu próprio perfil “pegou pesado”, aí sim, a cautela mais do que nunca, deveria estar presente. É aquela tal história: para tudo há um momento certo, para dizer a coisa certa, no lugar certo.

  5. [...] público, esse cuidado deve ser redobrado. O último posto aqui no Ponto Marketing foi sobre a gafe de uma funcionária que administrava o Twitter do Superior Tribunal Federal (STF). O assunto rendeu tantas ações que na ocasião o ministro César Peluzo ligou ao presidente do [...]

  6. [...] público, esse cuidado deve ser redobrado. O último posto aqui no Ponto Marketing foi sobre a gafe de uma funcionária que administrava o Twitter do Superior Tribunal Federal (STF). O assunto rendeu tantas ações que na ocasião o ministro César Peluzo ligou ao presidente do [...]

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