Televisão: Bolsonaro, CQC e a falta de consciência política
Muitos devem ter visto o Bolsonaro duramente jogando seus preconceitos na mesa ultimamente. Também sabemos que ele será processado pela Preta Gil e que o programa CQC veiculou imagens dele, onde o deputado agredia boa parte da nossa população.
Em termos jornalísticos, esses acontecimentos mexem muito com o psicológico e com o emocional da sociedade, ainda mais no Brasil que sofreu e sofre muito com homofobia, racismo e entre outras formas de preconceitos. Mas, o fato é que, além de emocionar a massa, o IBOPE cresce e o programa acaba ganhando vários pontos por estar veiculando tais agressões.
Mas, eu acredito veementemente que antes de a Band estar ganhando pontos no IBOPE, querendo ou não – isso porque ela pode não estar pensando na prestação deste serviço à sociedade – a emissora está publicamente mostrando quem nós andamos elegendo aqui no Rio de Janeiro. Antes de a gente pensar que está sendo agredido por comentários infames do deputado em questão e que uma emissora brasileira está se satisfazendo com depoimentos preconceituosos que geram grande audiência, temos que pensar que ele é um deputado eleito pelo povo, povo este que em grande parte é composto por homosexuais e negros. Por ironia do destino, aposto eu que, no geral, não buscamos saber quem foi no passado o deputado Bolsonaro e tampouco sabíamos que ele era preconceituoso a este ponto.
O deputado é culpado por seus atos desumanos, fúteis e preconceituosos. Ele defende o militarismo em tempos de ditadura onde muitos foram agredidos e mortos. Seus atos devem ser punidos. A Preta Gil o processará. O CQC, mesmo que tenha pensado somente em vender a matéria, prestou um serviço à sociedade, e isso me faz pensar que talvez este vídeo possa trazer um pouco de consciência política à cabeça das pessoas que votam indiscriminadamente, sem pesquisa, sem prioridades. Essa é uma tarefa muito árdua, até porque fomos durante anos aculturados de forma que não achássemos que política fosse algo com que devêssemos nos preocupar.
A sociedade de hoje foi manipulada exatamente para não se preocupar com ela própria, e muita parte da culpa disto está na ascensão do capitalismo veloz e feroz que nos ocupa 24 horas por dia. Estamos e fomos acostumados a acreditar que o status e o poder de compra são mais importante do que eleger seus representantes de Estado. Nossas escolas não discutem mais sociologia e política. São matérias que são vistas como mais uma, ao invés de ser tratada como importante o suficiente para o desenvolvimento de cidadãos que estão ali se formando. É por isto que os jovens não se interessam por política como antigamente.
Nós somos privados homeopaticamente desde crianças a poder discutir isso na nossa segunda vivência em uma instituição social – primeira é a família, a segunda é a escola – . É exatamente por isto que aqui no Brasil nunca mais vamos ver outra Passeata dos Cem Mil. O problema é bem mais sério do que parece. Mas, quase ninguém o vê assim. Essa aculturação está de tal forma tão internalizada no sistema, que para mudar só mesmo o mundo acabando ou, para não ser tão radical como de costume sou, seria preciso pensar na criação de políticas públicas que abolissem boa parte de pensamentos egoístas e capitalistas arraigados nas esferas públicas sociais.








Na primeira vez em que o CQC entrevistou o Bolsonaro, eu apoiei com o argumento de que eles estavam mostrando em quem o carioca votou. Agora, quando veicularam outra entrevista com ele na segunda semana de programa, o efeito não foi o mesmo. O CQC serviu de palanque para o Bolsonaro na segunda vez. Se havia alguma dúvida na primeira matéria, deveriam ter procurado saná-la antes de colocar o vídeo no ar.
O Bolsonaro tem o direito de não gostar de gay e expressar isso, ué. Provavelmente, quem votou nele concorda com isso e espera que ele defenda esse ponto de vista no plenário. Agora, o CQC deveria lembrar que a TV é a maior fonte de informação da população, população pouco letrada e pouco crítica (não me entenda mal, mas basta prestar atenção nas falas: “é verdade, eu vi na TV”), e quem não tem nenhuma perspectiva de consciência política vai dizer amém pra tudo o que o Bolsonaro pregar.
Desde o ano passado o CQC tem ficado mais “Pânico”. A crítica política está ficando de lado enquanto as festinhas de celebridades e “premiações” ganham mais espaço. Eu preferia a época em que o Danilo Gentili fazia as matérias no Congresso, ele se pautava e sabia entrevistar os parlamentares.