A Nissan e as redes sociais: 44.500 RTs depois

Por Cleyton Torres

Convenhamos, a ideia era boa, diferente e possivelmente um excelente combustível inflamável para um buzz marketing de sucesso nas redes sociais. Quem não gostaria de pagar um carrão da Nissan com alguns tweets no Twitter ou uns likes no Facebook? A brincadeira tomou proporções gigantescas, sendo anunciada por blogs, especializados ou não e, principalmente, pela grande mídia tradicional.

Porém, como eu disse, a ideia era boa. Todo e qualquer usuário das redes sociais citadas deveria postar um frase e receber, através daquela publicação, 44.500 replicações. Traduzindo: se fosse no Facebook, 44.500 “curtidas”; se fosse no Twitter, 44.500 RTs válidos, ou seja, não valia apenas colocar RT na frente do tweet, pois a replicação deveria ser feita através do sistema oficial do Twitter.

Poxa, isso jamais funcionaria! A média de amigos nas redes sociais no Brasil é de 273 pessoas (dados do Ibope). Para atingir a marca histórica proposta pela Nissan, cada usuário participante deveria ter seu tweet replicado ou sua frase curtida no Facebook umas 163 vezes por cada amigo! Ou seja, cada contato que você possui em uma rede específica deveria repassar sua publicação nada menos do que 163 vezes, no mínimo! Ah, e vale dizer que quem ganhasse numa das redes sociais não poderia ganhar na outra.

Resultado? Da mesma maneira que a brincadeira da Nissan caiu no gosto das redes sociais ela caiu no desgosto dos cases de redes sociais. Quem teria saco para aguentar tantos RTs e curtidas? Que amigo em sã consciência retwittaria o mesmo tweet mais de 150 vezes? Aliás, é válido lembrar que 71% dos tweets publicados não geram o menor impacto na twittosfera. Poxa, o que dizer de 44.500…

No Facebook, o primeiro colocado tem parcialmente apenas 1.894 curtidas. O segundo, meros 901. Todos precisavam de 44.500. O que teria acontecido? Ninguém teve saco para tanto lixo promocional da Nissan produzido de maneira gratuita e espontânea. No caso da rede de Mark Zuckerberg, o processo era ainda mais complicado. Você deveria mandar uma imagem com um folder da promoção que era encontrado em alguns veículos impressos. Tem gente que mencionou que sairia mais barato pagar pelo “carrão” do que ter todo o trabalho e ainda lutar pelos milhares de likes.

Já no Twitter, o segundo colocado tem pouco mais da metade, 26.169 RTs. O primeiro, 49.381. Opa, uma vencedor?! Não, já que a conta nem mais existe (@tca_oficial). Aliás, a própria Nissan esclarece assim que você entra no site da promoção:

Por que o aviso? Porque a Nissan possivelmente detectou a utilização de fishing, aqueles sites que prometem milhares de seguidores por dia e, obviamente, sequestram senhas. O que era e tinha tudo pra ser uma ação bem sucedida nas redes sociais acabou sendo vencida pela falta de paciência – válida – de centenas de usuários. Nós, algumas centenas de tweets e likes depois, já nem lembramos mais. A ação encheu muito o saco de quem realmente se engajou no evento. Toda a publicidade espontânea para a Nissan está sendo substituída por análises críticas e ásperas nas redes sociais.

A Nissan, 44.500 tweets depois, não sabe o que fazer. Mesmo com um vencedor (49.381 RTs), a empresa não consegue explicar se a ação nas redes sociais acabou ou continua. Pior do que ter uma ação totalmente fracassada é ter uma ação em que você não consegue nem explicar aos usuários o que está ocorrendo. A Nissan cometeu um dos erros mais clássicos do marketing em redes sociais: nenhuma empresa sabe o que quer e, quando sabe, não tem a menor ideia de como chegar até lá. A Nissan, 44.500 tweets depois, não sabe como chegar. Na verdade, acho que ela não sabe nem o que quer.

A segunda parte: A Nissan e as redes sociais: do fail ao #Nissanfail

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Sobre Cleyton Torres

Jornalista e blogueiro. Pós-graduando em História, também é pós-graduado em Comunicação, com ênfase em Assessoria de Imprensa, Gestão da Comunicação e Marketing.

21 comentários

  1. Leandro Vicenti disse: - Responder

    Por ser uma marca sem muita representatividade no país, a Nissan tem adotado a polêmica como carro chefe das suas ações. Visto, o VTs embargados pelo CONAR e o dinheiro distribuído em SP e outras cidades.

    Não discordo da previsível falha da ação dos 44.500, mas, ela tem novamente servido ao tom polêmico do MKT adotada pela Nissan este ano.

    Abs
    Leandro Vicenti

    • Muito bem lembrado, Leandro! A Nissan trabalha embasada no burburinho das mídias, como no caso dos – excelentes – vídeos vetados.

      Mas no caso dos RTs e likes o burburinho foi grande, mas todos acabaram se enchendo rapidamente e largaram a promoção. Literalmente a abandonaram. Porém, houve uma exposição grande e até certo ponto positiva.

      Obrigado pelo comentário! =)

  2. Sofia disse: - Responder

    Só uma coisa que fica mal explicada no texto, não tem como cada um dar 163 likes ou RTs, só pode swer um por pessoa. Ou seja é uma corrente….

    • Se você publicar um tweet eu posso dar RT 163 vezes. Não seguidamente, já que o sistema do Twitter não permite. Mas posso, sim, dar 1633 RTs dentro de um período.

      Quanto ao like, você tem razão: apenas um clique por pessoa, o que levaria para um corrente, aumentando ainda mais o trabalho para se conseguir 44.500.

      O 163 por pessoas foi só para ilustrar a dificuldade =)

      Obrigado pelo comentário!

  3. Diana disse: - Responder

    Eu acrescentaria uma coisa: é fácil dizer que a culpa foi da marca, sem lembrar que houve o trabalho de uma agência por trás.

    Se o #Fail era previsível, era papel da agência alertar.

    Mas parece que pra ID/TBWA, os #Fails estão se tornando recorrentes… #BemResolvida #JuntospelodescontoVisa

    • Nash disse: - Responder

      É óbvio que é também culpa da marca. Se ela contrata uma agência que já possui um “histórico” bem razoável de #fail`s em redes sociais, é quase natural adivinhar o resultado.

    • Pois é, Diana. Mas é aquela velha história: se você teve um péssimo atendimento com o entregador de pizza, quem paga o pato? O entregador de pizza ruim ou o entregador de pizza ruim da pizzaria tal? É o mesmo caso da Nissan. A agência errou, sim, mas o “carrão” era da Nissan. =)

      Obrigado pelo comentário!

  4. Quando vi o texto da promoção pensei “só uma celebridade com milhões de seguidores poderá conseguir isso, mas para quê uma celebridade iria querer participar disso? Só se fosse para ganhar o carro e doar para uma causa social”.

    Promoção mal feita é um tiro que sai pela culatra e só angaria antipatia e comentários ruins – fico pensando em quem bolou e quem aprovou essa campanha e onde será que eles estavam com a cabeça?

    abs,

  5. Ingo disse: - Responder

    Era óbvio que ninguém ia conseguir isso honestamente.

    É bom esses #fails pra galera das agências pararem com esse pensamento de aparecer em mídias redes sociais a qualquer custo, de qualquer jeito.

    Sim, cupriram a meta de aparecer, mas e aí? E aí? Hein?

  6. [...] marketing em mídias sociais conseguiu ir do auge ao apocalipse tão rápido. Em menos de um mês, a campanha “Quero o Meu Carrão”, da montadora Nissan, transformou uma ótima ideia – a ideia era realmente boa – em um fracasso absurdamente [...]

  7. [...] mas pela sequência de trapalhadas que a empresa e a agência organizadora da campanha cometeram. O que era para ser uma corrente de buzz positivo para a marca nas redes sociais transformou-se em bu…, xingamentos, “tiração” de sarro e campanha contra a [...]

  8. Rudy disse: - Responder

    O problema é que todo mundo acha q rede social é facil de ser usada profissionalmente… e não é!!! O feitiço vira contra o feiticeiro rapidamente!!! Boa oportunidade para Nissan aprender um pouco…

  9. juliana disse: - Responder

    nao achei a acao uma boa.
    Eu quero o meu carrao e vc tbm, entao pq vc curtiria ou me daria RT?

    ai veio uma galera com ideia legal, de se juntar e doar o carro, olha q legal ia ficar pra nissan, publicidade barata e ainda ajudar quem precisa, mas nao, ficaram atrapalhados com os scripteiros e ainda premiam os desonestos.

  10. [...] qual o tão repercutido #fail da Nissan, o mundo esportivo resolveu mostrar sua cara entre os grandes erros de 2010, e logo na corrida de [...]

  11. [...] Nissan, Nestlé, Fiat, Locaweb e tantas outras empresas que fizeram feio, ou #fail, como ficam conhecidos os erros das empresas nas redes sociais, conseguem fazer com que os empresários, em especial os que não possuem muitos recursos para propaganda e que não conhecem muito bem esse terreno novo desbravado pelas redes sociais, pensem duas vezes antes de investir nas novas mídias. [...]

  12. [...] campanhas que tiveram resultados diferente do planejado. Citando algumas, tivemos a Chuva de Twix, Quero meu carrão e a guerrilha do Avião do Faustão, que chegou a ter ruas interditadas e esquadrão antibomba, [...]

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