Entrevista: Isa Magalhães, autora de Sustentabilidade nos Negócios

Como dito no artigo anterior, sustentabilidade assusta algumas pessoas pelo fato de não saberem exatamente do que se trata. Então, nada melhor que ir atrás de fontes confiáveis sobre o tema. O livro Sustentabilidade nos Negócios é uma forma de adquirir valiosas informações sobre o que é e como aplicar a sustentabilidade dentro das organizações. Entrevistamos a autora do livro, Isa Magalhães, profissional de RH formada em História, Psicologia Transpessoal e Coach, sobre esse tão simples, importante e ao mesmo tempo polêmico tema.

Ponto Marketing – O que é sustentabilidade, em seu conceito geral?

Isa Magalhães – Em primeiro lugar, o meu olá para os leitores desse site. O termo sustentabilidade, uma palavrinha meio na moda, tem um conceito muito maior que imaginamos, nesses tempos de aquecimento global, muitas crises econômicas e sociais. Há quase 20 anos, a ONU afirmou que desenvolvimento sustentável “é o atendimento das necessidades das gerações atuais, sem comprometer a possibilidade de satisfação das necessidades das gerações futuras“. O termo, que para muitos se refere apenas à gestão ambiental nas grandes empresas, tomou outras proporções ao também indicar uma gestão responsável não apenas com o meio ambiente, mas com as pessoas e tudo que se refere ao social.

Mas o termo “sustentabilidade” ganhou uma conotação muito mais holística no século XXI. Um termo que ganhou notoriedade como referência aos projetos ambientais das grandes organizações, quando pressionadas pela sociedade a fazerem uma gestão sustentável sobre seus resíduos de produção, tornou-se muito mais sistêmico e engloba não apenas a ecologia externa, mas também a ecologia interna, seja das pessoas, seja das empresas.

PM – Como aplicar a sustentabilidade nas empresas modernas?

IM – A consciência de uma empresa nasce em seus valores, que são os sustentáculos da cultura organizacional – o estilo de comunicação, os tipos de pessoas que recrutará e o padrão de liderança dos gestores. Por isso, para trabalharmos com o conceito de sustentabilidade primeiro temos que trabalhar com a cultura da empresa, seus valores, missão, visão.

No meu livro, eu falo do uso dos valores humanos para a construção de uma empresa mais solidária e consciente, que poderá ajudar a tornar a vida melhor na sociedade em que vivemos. Nisso, o termo sustentabilidade passa a representar não apenas um modelo de gestão ecológica do meio ambiente, mas um modelo de gestão da ecologia interna que norteia as políticas de gestão de pessoas e suas estratégias de negócios.

Existe um valor humano que considero ideal para a prática da gestão sustentável, que é a boa vontade. Este valor é uma das bases da mudança comportamental que devemos alcançar para termos sustentabilidades nas ações futuras. Boa vontade significa uma atitude de cooperação que transforma o amor em ação concreta. A boa vontade estimula a justiça e a honestidade nas pessoas, por isso é considerado um dos valores mais importantes para sociedade humana contemporânea.

PM – Sabemos que a liderança tem um papel fundamental no processo de conscientização para a sustentabilidade. Como os líderes das organizações que desejam aderir à sustentabilidade podem mobilizar os demais colaboradores para participar do processo?

IM – Primeiramente, os líderes deve se conscientizar da importância de uma gestão de pessoas sustentável, porque fazemos negócios com pessoas e para pessoas. Assim, a educação interna para uma mudança de valores é o princípio. Mesmo porque a visão sustentável não é uma técnica, é uma consciência. Segundo, para uma organização sobreviver e se desenvolver necessita de inovações constantes para se revitalizar. O processo de revitalização acontece quando trabalhamos regularmente a cultura organizacional. Podemos revitalizar uma empresa mexendo em seus valores, alterando sua cultura. E como já disse antes, isso não é fácil porque sugere uma mudança de consciência. E todos nós sabemos da grande resistência para mudarmos.

No entanto, valores como respeito ao próximo, compaixão, solidariedade, simplicidade, amor e tantos outros importantes para a boa convivência humana são fundamentais para a saúde biopsicossocial da empresa. Os líderes devem ser treinados para usar esses valores.

PM – Qual o papel da comunicação nesse processo?

IM – Nossa sociedade atual é baseada na informação, na comunicação de ideias. Mas informação não é formação. Dessa maneira, acho que a comunicação tem um grande desafio que é encontrar um modelo de informação mais substancial  em tempos de urgências, onde as pessoas não mais leem, e querem tudo muito rápido. Conscientizar as pessoas sobre a necessidade de um novo modelo econômico, social e ambiental que traga sustentação aos recursos naturais globais e qualidade de vida para todos no planeta é fundamental.

Todo mundo sabe o quanto o modelo de produção das grandes empresas estão sendo questionado nos últimos anos em termo de “ecoeficiência”. Ou seja, a preocupação com questões como a emissão de menos poluentes, a redução da produção de lixo industrial, menos gasto de energia entre outras, são discutidas em busca de soluções urgentes para a poluição que está ameaçando o planeta e as futuras gerações. A comunicação, seja em veículos da mídia ou internamente na empresa, é uma das principais ferramentas de conscientização das pessoas neste século, sobre todos estes assuntos.

PM – Você considera que as organizações de hoje estão verdadeiramente voltadas para a importância da sustentabilidade, como diferencial no mercado?

IM – Não. A maioria das empresas ainda não adotou verdadeiras práticas sustentáveis. Os projetos nessa área ainda são muito tímidos diante da urgência em nos encontramos. A maioria adota práticas superficiais, projetos para venderem sua imagem a sociedade. Existe muito mais propaganda do que verdade nos projetos que conheço.  Claro que existem empresas conscientes e preocupadas com o meio ambiente, as pessoas a sua comunidade. Mas infelizmente ainda são poucas…

Acredito que ainda não existe a verdadeira consciência por parte das empresas por falta de uma mudança na mentalidade dos lideres em relação aos negócios. A urgência dos resultados financeiros, dos lucros, ainda impera. Mas agora não se trata mais de “marketing”, se trata de sobrevivência mesmo! Sobrevivência não apenas do planeta, mas dos negócios, afinal os consumidores estão cada vez mais antenados e exigentes quanto à responsabilidade das empresas em sua comunidade e com o meio ambiente. E em nossa sociedade da informação, ninguém esconde mais nada. Assim, atenção senhores gestores, sejam verdadeiros em seus discursos. O cliente não perdoa ser enganado!

PM – Diante da grande demanda do mercado por empresas cada vez mais voltadas para práticas sustentáveis, o que as ações sustentáveis podem representar no resultado final das empresas?

IM – Os resultados para uma empresa que tem uma visão sustentável são enormes! Creio que a prática sustentável já é um modo de vida ainda não totalmente vivenciado por todos, mas a velocidade e a intensidade das mudanças ocorridas nos últimos anos são surpreendentes. Assim, embora as ações sustentáveis da maioria das empresas ainda sejam tímidas, elas estão procurando se adaptar ao mundo dos negócios globalizados e ecologicamente corretos, um cenário que exige uma visão competitiva aliada a um comportamento cooperativo. Essa realidade mostra a necessidade das empresas buscarem formas criativas e alternativas de negociação para obterem lucratividade. Práticas de negociações ilícitas como as que detonaram a recente crise no mercado americano que varreu o globo não serão mais aceitas. Por isso que já se fala muito em mudanças radicais no modelo econômico vigente.

PM – Fazendo um comparativo com as organizações de países desenvolvidos, o Marketing Sócio Ambiental no Brasil, apresenta características agregadoras, independente da demanda do mercado, ou ainda é visto como ação corretiva para a ampliação de mercado das empresas?

IM – O Brasil tem uma cultura agregadora. O pensamento de sustentabilidade nos negócios visa aliar o lucro com a responsabilidade social e ambiental. E para isso a atenção aos recursos humanos e naturais como forma de gerar lucro é o desafio das empresas que buscam prosperar, construir uma boa imagem para os seus clientes e sem deixar de ser responsável pelo futuro das próximas gerações.

A questão agora é uma mudança verdadeira de consciência por parte das empresas, que no século passado foram mestras na produção de bens diversificados e criaram o marketing para incorporar fatores como preço, qualidade, serviços e inovação tecnológica ao consumidor, numa corrida maluca para ganhar o cliente. Essa mentalidade fortaleceu a cultura da competição extremamente agressiva e predatória, onde todos os valores morais foram postos em cheque, principalmente com o cuidado no trato com a vida, com as pessoas, com o planeta. A competição, centrada na lógica financeira de lucros crescentes, negou totalmente as conseqüências negativas para o meio ambiente, e conseqüentemente, a vida como um todo.

PM – No livro você fala sobre a “desmassificação da produção de consumo”. O que isso significa e qual a influência da sustentabilidade nisso?

IM – A transformação da mentalidade consumista de nossa sociedade é fundamental para colocarmos novamente a vida no centro de tudo. E isso é um paradoxo complexo, porque a nossa economia capitalista sobrevive do consumo, e o que acontecerá com ela se pararmos de consumir?

Essa pergunta é também tem uma resposta complexa. Acho que tem haver com a busca por um consumo com qualidade e não mais por quantidade. Desmassificar é uma nova consciência de um consumo menos predatório. A solução é a mudança de valores gananciosos e totalmente voltados para o “ter mais dinheiro do que podemos gastar”. No livro eu falo sobre o lucro acumulado pelas grandes empresas, que é exagerado e mal distribuído, fazendo do mundo um lugar desigual, uns com muitos outros com tão pouco. Dessa forma, fazer uma empresa prosperar não é torná-la a mais rica, isso não passa de uma crença de que “quanto mais dinheiro tenho mais forte serei”. A última crise econômica mundial provou que isso não verdadeiro, afinal, as primeiras empresas a afundarem eram aparentemente ricas e sólidas!

Acredito que desmassificar o consumo é a busca por algo mais intangível que os produtos comprados, como os valores humanos, o bem-estar social e a preservação do meio-ambiente.

PM – Geralmente vemos a aplicação de ações sustentáveis no ambiente externo à empresa. E quanto ao ambiente interno, como a sustentabilidade pode ser aplicada?

IM – O problema é que alguns empresários ainda fazem confusão com essa denominação. Eles acham que o termo sustentabilidade designa algo estanque, individualizado, do tipo: sustentabilidade econômica é gerar lucros, sustentabilidade ambiental é proteger o meio ambiente ou a sustentabilidade social é melhorar a vida das pessoas. Falta-lhes uma visão sistêmica. De um modo geral podemos dizer que só é sustentável aquilo que se desenvolve continua e sistemicamente.

Por isso, uma gestão sistêmica é à base da Sustentabilidade Corporativa, uma vez que engloba vários aspectos do modelo de negócio a ser adotado. Esses aspectos vão do econômico ao social, do humano ao ambiental. É uma gestão totalmente integrada, onde às praticas da empresa compactuam com o planejamento estratégico, integrando objetivos, forma de produção, características dos produtos e relacionamento com todos os seus stakeholders.

PM - Que dicas você daria para as pessoas que desejam levar o conceito de sustentabilidade para ser discutido e aplicado nas empresas onde trabalham?

IM – No meu livro tem uma passagem onde falo que tudo é uma questão de valores internos e educação para a busca da paz, um sentimento que nos deixa solidários e capazes de usarmos a política de sustentabilidade:

“Ao educarmos nossa mente e emoções para a tranquilidade, menos hostilidade, serenidade de espírito, harmonia interior e conciliação, estaremos nos educando para a paz.

Esse processo pode começar no que alguns chamam de chamada Pedagogia da Cooperação, uma prática baseada em três movimentos:

1.      Convivência: vivenciar o compartilhar é fundamental para a aprendizagem social. É preciso entender o outro para nos reconhecer neste outro.

2.      Consciência: ao criarmos um clima de cumplicidade com os outros, podemos refletir sobre a importância da convivência e sobre as possibilidades de modificar nossos comportamentos e relacionamentos.

3.      Transcendência: a disposição para dialogar, decidir em consenso, experimentar as mudanças propostas e integrar  nossa vida, provoca as transformações interiores desejadas.

Na visão holística da vida, as evoluções ocorrem de dentro para fora, sempre do pequeno para o maior, ou do indivíduo para a sociedade. Assim, o processo de aprendizado de novos valores indispensáveis para um ambiente de cooperação e paz, começa em nós mesmos. Da mesma forma que aprendemos a correr, a andar, falar, escrever, podemos aprender a cooperar. Mas esse aprendizado não é intelectual. Somente praticando a cooperação em diferentes condições, seja pessoal, grupal, social, profissional é que aprenderemos a nos relacionar de forma cooperativa. Essa é a verdadeira revolução no ambiente de trabalho” (passagem do livro).

PM – E quais as dicas para que as pessoas apliquem a sustentabilidade em suas vidas particulares?

IM – Para temos sustentabilidade na vida, temos que ter ações coerentes com a nossa missão pessoal. Dessa maneira, devemos nos conhecer melhor para alinhar o nosso Sentir, Pensar e Agir. Ou seja, normalmente nós sentimos de uma forma, pensamos de outra e agimos muitas vezes totalmente em desarmonia com o sentir e o pensar. Isso é fundamental para trabalharmos nosso todo de forma integral: corpo/mente/emoções/espírito.

Olhar a vida de forma integral requer uma mudança de valores, pois isso nos traz a consciência que de que somos todos interligados, o que eu faço ao outro retorna de alguma forma para mim. E isso não misticismo! É física quântica…Tá, eu sei que a maioria acha tudo isso bobagem, mas reconhecer a importância de um bom relacionamento é vital para a nossa natureza humana. Sempre afirmo que um relacionamento ético e afetivo é à base do equilíbrio para nossa existência, e não apenas um ideal de vida.

Devemos nos espelhar nos grandes filósofos e pensadores, em mestres da humanidade como Cristo, Buda, Confúcio, e muitos outros que mostraram que a correta relação entre os seres humanos traz paz e saúde integral para todos – pessoas e o Planeta Terra.

Isa Magalhães é formada em História, Psicologia Transpessoal e Coach pela Integrated Coaching Institute, com pós-graduação em Gestão de Pessoas pela FIA/ USP. É Psicoterapeuta, Coach, Palestrante e Consultora em Desenvolvimento de Pessoas, com foco em treinamentos comportamentais nas áreas de Autoconhecimento, Relacionamento Interpessoal, Criatividade, Negociação, Liderança e Motivação. Desenvolve projetos em RH Estratégico e Qualidade de Vida no Trabalho com a visão biopsicossocial nas organizações, tendo entre seus clientes grandes empresas como os Correios, Oi, SEBRAE, Petrobras, Porto Seguro, Avon, entre outras. Autora dos livros “Psiu, O Síndico Pode Estar Ouvindo” (contos) e “Manual de Sobrevivência ao Medo” (Ed. Universalista), “Gestão Holística de Pessoas – Qualidade de Vida e Bem-Estar no Trabalho” (Ed. Flora Nativa).

Sobre Gabriel Galvão

Administrador habilitado em marketing, consultor de marketing, desenvolvedor de sites e blogs, editor do blog e palestrante.

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